A Diversidade do Traje Gloriano

03 mar A 19 abr
Exposição
“Uma alta expressão do cuidado das glorianas, assim se apodam, está nas toucas e vestidos dos seus filhotes. Qualquer touca vulgar é engrinaldada de dois e três franzidos, e o restante coberto de bordados vários”.
 
Alves Redol, Glória – Uma Aldeia do Ribatejo
 
"A diversidade do traje gloriano - artes do pormenor no traje feminino" é a mais recente exposição da Galeria da Falcoaria Real de Salvaterra de Magos. 
É com orgulho que trazemos até Salvaterra de Magos um pouco dos costumes e tradições da Vila de Glória do Ribatejo. Com origens que remontam ao século XIV esta vila desenvolveu uma cultura que a difere de todas as freguesias do no nosso Concelho.
Os pormenores que podem ser apreciados nestes trajes comprovam que “empenho e dedicação” são lema das mulheres glorianas. A diversidade e criatividade do seu traje reflete um estado de alma repleto de emoções e tradição.
À Associação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo deixamos o meu reconhecido agradecimento pela disponibilização do espólio que integra esta exposição e pelo trabalho que vem desenvolvendo de estudo e recolha da cultura e do património de Glória do Ribatejo.
Venha conhecer as peculiaridades do traje gloriano na Falcoaria Real de Salvaterra de Magos.
 
 
Diversidade e Evolução do Traje Gloriano
 
De todas as peças da indumentária, o casaco seria a mais complexa. Desde cedo, as raparigas eram iniciadas na árdua tarefa de confecionar um casaquinho bem feito que passava por várias etapas: fazer e desfazer até à aprovação final. O casaco, peça delicada, apresenta feitios diversos, consoante as épocas, e distingue-se pelos seus nomes próprios: “casaco de regadeira”, “casaco de meia regadeira”, “casaco aos bicos cortados”, casaco de espelho”, “casaco de orelhas” etc. 
 
A saia de castorina (pelas costas) era peça indispensável, tanto no inverno, como no verão. Tinha em média 4,5 metros de roda, sendo substituída pelo xaile ou malhão em ocasiões festivas. 
Na cabeça, usavam-se lenços de pano, de fundo branco ou amarelo, com os mais diversos padrões e cores. Eram conhecidos, também, por nomes específicos: “lenço às cartas”, “lenço aos ramos”, “lenço aos corações”, “lenço aos laços”, “lenço às grades”, lenço aos torricados”, “lenço às estrelas”, “lenço às cebolas”. Nos trajes de festa, usava-se lenço chinês e lenço de cachené, dos mais vistosos aos mais sóbrios. Também as cores variavam entre as várias tonalidades de amarelo, verde, cor-de-laranja, castanho e até azul. No traje de semana e de domingo, o lenço marcado e dobrado “à balhana” ou em quatro pontas era em tudo igual ao dos namorados e era usado ao lado (esquerdo ou direito). Toda a compostura era rematada com cinto apertado na cintura, diferente nas cores, espessura e aplicações, consoante as épocas.
 
 Mais tarde, quando já mães, tinham de fazer as toucas para os filhotes. Uns folhos bem embainhados e bem encasalados faziam subir a reputação de qualquer mãe de família. De tal forma assim era que, no Natal, para as mulheres casadas, o ponto alto do dia seria vir para a rua passear-se com os filhotes, de toucas engalanadas, mostrando e admirando umas e outras.
Toda a roupa era muito poupada, razão por que passava por várias fases de uso até chegar a rodilha. Assim, uma peça nova era usada ao domingo. Já envelhecida, passava a ser usada à semana e, daí, era posta ao trabalho. Depois de esfarrapada, continuava a ter utilidade, como rodilha, nas lides domésticas. Os trajes de festa não entram nesta sequência. Eram guardados para outras ocasiões festivas e, às vezes, das saias das mulheres, faziam-se outras peças para as meninas.
 
O traje da Glória ainda hoje se pode observar nas mulheres mais idosas, muito embora as cores se situem apenas entre o sóbrio e o preto. O traje foi evoluindo consoante as épocas, refletindo o aparecimento de materiais, ao longo da história, da moda (por ex. a altura das saias), mas sobretudo, revelando uma criatividade extraordinária que se desenvolveu numa ambiência de quase competitividade, levando assim ao surgimento de peças muito complexas, do ponto de vista da confeção. 
 
O traje da Glória ainda hoje se pode observar nas mulheres mais idosas, muito embora as cores se situem apenas entre o sóbrio e o preto, mas para as gerações jovens, o 25 de Abril é o marco temporal que define o início de uma nova era, a partir da qual, a matriz tradicional se vai esvanecendo progressivamente até desaparecer completamente.
 
Texto de Dra. Rita Pote, Associação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Glória do Ribatejo

 

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